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A Batalha de Mérida - LXVII Milhas Romanas

O ano de 2009 foi o meu baptismo como ultra maratonista nos 101 KM de Ronda.
Sim, porque segundo os ultras de barba rija, aquela prova com 43 KM, que começa na praia de Melides e atravessa todo o areal até Tróia não conta! Estava física e mentalmente bem preparada!

Ronda foi de facto uma experiência inesquecível, que ainda hoje me traz à memória fortes emoções e lembranças. Cumpri e superei o meu objectivo ao efectuar 11h55m, tempo abaixo das 12 horas previstas, mas fiquei sempre com uma sensação de que podia ter ido mais longe… aqueles últimos 20 KM não foram geridos da melhor forma, tendo-se instalado lentamente uma quebra psicológica que só mesmo nos quilómetros finais foi ultrapassada.

Tinha lido muito e recolhido inúmeros testemunhos sobre a preparação mental neste tipo de eventos e na importância que tem para chegarmos ao fim fortes. Após ter completado aquela distância, fiquei logo com um vislumbre que, para além do treino físico, é fundamental, neste tipo de provas, estar preparado para o inesperado, de mente aberta, sempre com a certeza de que vamos atravessar momentos difíceis, e que é preciso dar a volta! É nisto que consiste o atractivo destas provas: há sempre um desafio à nossa espera e muitas aventuras para viver!

Fiquei definitivamente “apanhada” pela experiência, pelo que meu objectivo para 2010 passaria sobretudo por amadurecer como atleta destas distâncias e, se possível, melhorar o tempo efectuado.

A ideia de participar nas LXVII Milhas Romanas (100 KM) surgiu numa amena cavaqueira de amigos, tendo sido descrita como uma prova acessível com as particularidades de ser efectuada em 3 circuitos e de o ritmo mais rápido autorizado ser de 7 minutos /KM. Lembro-me de ter pensado que seria uma excelente oportunidade para ganhar experiência, embora não me permitisse fazer um tempo abaixo das 12 horas.
Contudo, existiam ainda 2 grandes desafios nesta prova: correr praticamente 9 horas nocturnas (começa às 21h de Sexta e o limite de tempo dado aos participantes para terminar é de 24 h) e gerir o ritmo de forma a não parar nos postos de controlo para não arrefecer.

Assim, estavam reunidos os ingredientes para efectuar a minha inscrição!
Que comece a Batalha Romana!

 

Mérida é uma cidade histórica a 60 KM de Badajoz, com um ambiente acolhedor, que merece uma visita.

Chegámos no dia da prova, 9 de Abril, às 17h30m e dirigimo-nos ao Pavilhão Diócles para efectuar o levantamento dos dorsais. Este polidesportivo serviria durante a prova como base para o início e término de 2 dos 3 circuitos.

Juntamente com os dorsais e para além de alguns “recuerdos”, foram distribuídos um cartão com a indicação dos diversos postos de controlo, onde seria necessário ser carimbado e um rutómetro, tipo roadbook com mapa, abastecimentos e informações dos itinerários dos percursos.

Principal informação a reter: distância do percurso e respectiva cor da sinalização:

1.º Circuito com 27,5 KM, “Circuito del Guadiana” com sinalização vermelha;
2.º Circuito com 27,7 KM, “Circuito de Proserpina” com sinalização amarela;
3.º Circuito com 44,8 KM, “Circuito Los Pueblos” com sinalização verde.

É tempo de verificar a mochila que podíamos deixar no pavilhão com algum material extra e a mochila que me iria acompanhar durante a prova, equipar e siga para o local da partida.

Chegados à “Plaza de España”, local de partida e meta da prova o ambiente é incrível e festivo, como já nos habituaram nuestros hermanos.

Ao soar da nona badalada do relógio da praça é dada a ordem de saída para o 1.º circuito.
Este circuito é praticamente efectuado no interior da cidade percorrendo trilhos e caminhos ao longo do Guadiana, que atravessamos duas vezes: uma pela nova ponte com design ultramoderno e outra pela antiga ponte romana!
A paisagem da cidade enquadrada pelo rio é magnífica, permitindo que os quilómetros passem quase despercebidos não fossem os pontos de controlo e atenção para com a sinalização.

Chego ao pavilhão fresca, como se tivesse saído apenas para um passeio ao entardecer, mas há que manter a concentração… muita prova há ainda pela frente! Abastecimento feito e saio com mais 2 amigos portugueses que também andam nestas aventuras, para o 2.º percurso.
Decidimos que a melhor estratégia para todos é tentar mantermo-nos juntos o maior número de quilómetros possível, pois a dificuldade deste percurso é consideravelmente maior e as horas tardias iram começar a pesar no corpo e na mente.

O percurso deixa de ser citadino e passamos para trilhos e caminhos que servem terrenos agrícolas. Logo no início existe uma subida acentuada de 5 KM, e o piso começa a ficar muito complicado! As chuvas intensas e as máquinas sulcaram e desnivelaram os caminhos de terra e pedra que agora calcorreamos. Um vento frio começa agora a soprar de frente e é preciso avançar mais rápido para não arrefecer!

Um trote mais acelerado e um pé em falso levam-me ao chão! Bolas, penso em fracções de segundo, ainda estou no início e já me pareço com certos jogadores de futebol…
Os meus companheiros de jornada apressam-se de imediato a ver se estou bem e levanto-me como se tivesse molas. Ando um pouco e vejo que apenas tenho uns arranhões na mão e no ego.

Continuamos com um passo mais cauteloso, pois já nem as marcações ajudam! Percorremos diversos quilómetros no meio de nenhures e sem qualquer sinal de confirmação que vamos pelo caminho certo! De vez em quando lá avistamos algumas fitas e as luzes dos controlos levam –nos a respirar de alívio!

Após atravessar um lamaçal lá chegamos ao lago Proserpina, que dá o nome a este 2.º circuito.
Temos que contornar o lago e para surpresa nossa, de vez em quando encontramos tendas Iglos, de dentro das quais sai o ressonar dos pescadores que lá se encontram… certamente à espera que o peixe se deixe enganar pelas suas canas de pesca. Alguém do grupo atira para o ar “ Isto há malucos para tudo”, provocando gargalhada geral!

Pouco após esta parte do percurso, voltamos novamente a entrar num trilho tortuoso de pedra solta. Apesar das luzes dos frontais, uma imensa escuridão envolve-nos…a lembrança da queda ainda está patente no corpo, por isso desço agora com muita cautela!

Chegamos novamente a Mérida, mas logo à entrada perdemos o rasto às setas que assinalam o 2.º percurso…várias tentativas e já no meio de Mérida voltamos a encontrar o caminho certo, mas perdemos algum tempo. O cansaço era tanto que ninguém se lembrou que temos o rutómetro com o nome das ruas…

De volta ao Pavilhão, para comer qualquer coisa, recarregar baterias e aliviar o espírito!
Paragem de quase 15 minutos e seguimos novamente juntos, agora com mais um elemento! Já só falta mais uma maratona e uns pozinhos e a Batalha está praticamente vencida!

Percorremos agora diversos trilhos que ligam as povoações ao redor de Mérida. Apesar de as sinalizações estarem melhor colocadas, o terreno continua difícil e numa descida “carimbo” nova queda e mais uma mossa no ego! O lado esquerdo do Chassi não se podia ficar a rir do direito, comento para os meus companheiros. Está tudo bem e seguimos.
Um elemento do grupo queixa-se agora frequentemente com náuseas, provavelmente devido ao café com leite que bebeu na última paragem pelo pavilhão.

O vento frio não dá tréguas e o cansaço começa a apoderar-se de todos os elementos do grupo. Todos nos apercebemos que as coisas não estão fáceis e sem verbalizarmos lá nos vamos apoiando uns aos outros, ora com piadas, ora alternando caminhada rápida com trote lento, ora com aquele silêncio cúmplice de que estamos todos a comungar da mesma experiência.

Alcançamos um grupo de 2 espanhóis, que vai alternando um trote leve com caminhada rápida, num ritmo quase diabólico. Ultrapassamos e somos ultrapassados, e este jogo ajuda-nos a manter a motivação e a seguir em frente.

Começa a amanhecer, parecendo-me que o pior já passou. Sinto-me mais leve e mais confiante, mas agora é outro elemento do grupo que começa a acusar o peso de tantos quilómetros e até o simples andar já lhe é penoso. Vamo-lo animando e traçando metas mais curtas para que não se deixe ficar para trás.
Vejo a grande agonia por que está a passar e decido acompanhá-lo até ao fim para que não fique sozinho.

Ao fim de algum tempo e já com Mérida à vista decidimos que o melhor é trotar até ao fim porque a caminhada já não está a resultar.

Nos últimos 3 quilómetros o esforço é mais do que patente, mas o incentivo e a entreajuda no grupo é tão grande que conseguimos fazer o último quilómetro em 4 minutos, chegando ainda dentro das 13 horas (12h59m).

Somos recebidos como vencedores e vamos individualmente ao palanque instalado na Plaza de España receber o tão desejado milenário romano. A Batalha está ganha e valeu cada gota de suor! Apesar do cansaço a alegria está estampada em cada um dos nossos rostos, sinal de que já estamos a sonhar com a próxima aventura…

E a próxima aventura está já ao virar da esquina, no próximo dia 8 de Maio em Ponferrada, Espanha: os 101 KM dos Peregrinos!