Torrenjocillo, Cáceres, Espanha
Domingo, 6 de Outubro de 2009.
São 9h30m, a temperatura ronda já os 30.ºC, mas isso não demove um pelotão de cerca de 100 atletas, que se prepara para a partida da II MARATON DE MONTAÑA “Pueblo de los Artesanos”, em frente ao Pavilhão Desportivo Municipal.
Fotos para aqui e acolá, trocam-se ideias e conselhos, admiram-se as últimas tendências de ”gadgets” para Trails e, para quem assiste a tudo isto de fora, nem parece uma prova competitiva, antes um treino em conjunto um pouco pomposo e excêntrico. É assim o Mundo do Trail e das Corridas de Montanha, onde a competitividade (também há q.b.) é substituída em grandes doses por companheirismo e amizade.
Foi para viver todo este espírito, que me deixei seduzir e decidi participar nesta prova.
Começou com um desafio de um amigo que há muito anda nestas coisas do Trail: ”Ah e tal, é fácil, apesar de serem 42 KM, é bom para começares a correr em montanha…não custa nada, vê lá, só tem 1000 m de acumulado e a parte técnica do percurso é só 3 KM, o resto é para rolares (conversa para convencer uma papa-léguas de estrada). A organização é boa e os atletas são tratados espectacularmente. A localidade fica mesmo aqui ao virar da esquina, uns poucos quilómetros para lá de Castelo Branco.”
Com tantos argumentos é difícil resistir e o bichinho do desafio começa a crescer! Também nunca tinha feito uma prova dita de montanha…Hummm, é isto mesmo! Inscrição feita online e não se pensa mais nisso.
Umas semanas depois e com a mala arrumada, aí vamos nós Sábado à tarde, rumo à aventura em Torrenjoncillo, uma vila próxima de Cáceres.
Encontro-me com mais amigos que também vêm fazer a prova e vamos levantar os dorsais.
Somos recebidos de forma entusiástica pelos “nuestros hermanos” que tudo fazem para assegurar que nos sentimos em casa. Houve jantar de massa que nos proporcionou uma alegre confraternização ibérica, de tal forma que quase nos esquecíamos que no outro dia de manhã tínhamos que estar fresquinhos para percorrer 42 KM.
Após o respasto, seguimos até ao pavilhão onde os atletas de fora poderiam tentar dormir…pois… consegui-lo é outra história. É que muitos atletas durante a noite tentaram “eliminar” a concorrência com ruídos respiratórios em pleno sono!
A alvorada é dada por alguns alarmes de telemóveis e toca a despachar para tomar o pequeno-almoço com tempo. Abastecimento feito e aproxima-se a hora da partida.
Uma última verificação ao equipamento e eis que soa a buzina de partida.
Os 9 KM iniciais são feitos a bom ritmo, passando por quintas situadas numa zona mais plana da Extremadura Espanhola. Atravessamos um pequeno riacho e rumamos a Portezuelo por um trilho com uma ligeira inclinação.
No início da vila, aos 13 KM, encontram-se muitos populares a incentivar os atletas e aí indicam-nos um trilho estreito e técnico, numa subida muito acentuada. Observo que os atletas que se encontram à minha frente optam por subir a andar, opção que acabo por tomar de forma a poupar esforços para o que ainda se avizinha. No final dessa subida encontram-se as ruínas de um castelo…há que galgar pedra para chegar à outra encosta por onde temos de descer.
E que descida! Não há trilho marcado e por entre arbustos, pequenas lajes, torrões de pedra e árvores lá se vêem as fitas que indicam o sentido do caminho…É tentar descer com alguma dose de loucura e sem fazer Sku!
A partir daqui são cerca de 7 KM sempre a subir até ao ponto mais alto da prova “Pico La Sileta”. O que nos espera são praticamente duas subidas em pedra solta intervaladas um declive de tal forma acentuada que nos impossibilita de correr. Neste declive aproveito para retemperar forças a andar.
Chegados lá acima é hora de voltar a descer. A descida é muito rápida e leva-nos até outra localidade, Vila Pedroso del Acim, onde se encontra o ponto de controlo do 25 KM.
Após este ponto voltamos a entrar numa zona de trilhos situada num pinhal e aí avizinha-se nova subida íngreme. Consigo fazê-la a correr num passo muito miudinho, tentando não perder o alento. O calor e o cansaço começam a agora a pesar.
Ultrapassado esse obstáculo, novo trilho num percurso ondulante. Tento apreciar a paisagem, mas ao mínimo descuido acabo por tropeçar, felizmente, sem queda. Neste tipo de terreno, não se pode facilitar e para apreciar o que nos rodeia é melhor parar!
Lição aprendida e toca a descer até ao tal ribeiro por onde passamos no inicio da prova. Teremos novamente que percorrer os mesmos 9 KM iniciais. Mas agora parece que lhes acrescentaram mais uns metros e que cada pedra no caminho se dividiu em duas.
O calor faz-se sentir agora de forma acutilante, não há sombras e abastecimento, nem vê-lo! Desconfio que estou ligeiramente desidratada e tento não forçar muito o andamento. Começo a passar alguns atletas que estão a sofrer ainda mais que eu e quase já nem conseguem andar.
Vou-lhes transmitindo algumas mensagens de ânimo que servem para mim também. Falta pouco…
A cerca de 4 KM da Meta avisto o abastecimento. Bebo duas garrafas de água e um copo de bebida isotónica. A sombra é irresistível, e apetece-me ficar mais um bocadinho…mas as forças já não são muitas e o melhor é ir andando.
Lá vou correndo um pouco atabalhoadamente…está quase…
Falta ainda 1 KM, mas saudades do abraço do meu marido, a ideia de um bom banho e o “cheiro” a Meta fazem milagres! As pernas ganham asas e já ninguém me consegue agarrar!
Os amigos que se encontram na Meta põem-me a bandeira de Portugal aos ombros e corto-a com a sensação de me ter superado.
A experiência foi tão enriquecedora, que fiquei completamente arrebatada por este tipo de terreno e de ambiente. O bichinho do Trail ficou e já me encontro a procurar outro desafio…
Até lá desejo-vos continuação de bons treinos.
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